Capítulo 03 - A voz do povo é a voz de Deus.



Diz-se isto, e com frequência, quando parece haver unanimidade a respeito de determinada coisa ou fato. Mas, será mesmo que a voz do povo é a voz de Deus? Não deveria ser o contrário, ou seja, a palavra de Deus é a voz do povo? É certo que sim.

Alguém disse que toda unanimidade é burra. Podemos concordar uns com os outros acerca de muitas coisas, mas haverá sempre algum ponto-de-vista divergente. Este pode até ser enriquecedor e plenamente aceitável dentro do exercício da democracia.

Assim sendo, uma divergência não terá que nos afastar dos outros. A tolerância religiosa, por exemplo, deve caracterizar o homem civilizado e globalizado; deve ser uma das marcas dos que se dizem santos, mormente os cristãos, pois disse o Senhor Jesus Cristo: “Um novo mandamento vos dou: Que vos ameis uns aos outros; como eu vos amei a vós, que também vós uns aos outros vos ameis” (Jo 13.34). É triste, muito triste, saber que os homens dizem conhecer e obedecer a Deus, enquanto continuam se afastando uns dos outros até a intolerância religiosa, matando o próximo. Não se trata, aqui, de nenhuma ação ou pregação pró-ecumenismo. Este é outro tema, outro assunto.

Quando se faz a interpretação de textos, particularmente da Bíblia, existe sempre a possibilidade de se chegar a uma exegese diferente de outra. O mesmo acontece com a hermenêutica das leis, das normas jurídicas. A doutrina contém divergências e seus aplicadores devem ser sábios e prudentes no seu uso.

Quando estamos a falar, ipsis literis, a palavra de Deus, a Bíblia Sagrada, é perfeitamente válida a expressão a voz do povo é a voz de Deus. Por outro lado, quando estamos a ler a interpretação de um texto bíblico feita por alguém devemos ter bastante cuidado para não declararmos o mesmo sem fazermos, antes, uma crítica com boa erudição; até pelo fato de que tal exegese pode ser tendenciosa. Mas, quando alguém diz que a voz do povo é a voz de Deus o que, na verdade, essa pessoa deseja? Ela deseja, no mínimo, três coisas. Primeira: afirmar-se como inteligente por estar do lado do povo. Segunda: defender a sabedoria popular, como irretocável naquele momento em relação à coisa ou fato considerado. Terceira: passar a ideia de que Deus concordou com o povo ou que este conhece muito bem a vontade de Deus.

Isso é verdade ou não? Em primeiro lugar, é necessário que se diga: nem sempre estar do lado do povo significa inteligência, muito embora possa significar prudência; por outro lado, divergir do povo pode significar inteligência, apesar disto representar, não raras vezes, imprudência e até mesmo risco de morte. Em segundo lugar, sabemos que a sociedade é dinâmica e que a sabedoria popular é mutável, portanto retocável sim. Por último, em Sua soberania e onisciência, Deus, com certeza, não Se porá do lado do povo considerando-o infalível.

Assim sendo, não podemos afirmar que a voz do povo é a voz de Deus. Ademais, lembra-nos a Bíblia Sagrada: “Certamente que os homens de classe baixa são vaidade, e os homens de ordem elevada são mentira; pesados em balanças, eles juntos são mais leves do que a vaidade”. (Sl 62.9)

E agora digamos juntos: Muito obrigado, SENHOR.

SUBSÍDIOS BÍBLICOS

1. Sabemos que somos de Deus, e que todo o mundo está no maligno. (1 Jo 5.19)

2. Quem dentre vós é sábio e entendido? Mostre pelo seu bom trato as suas obras em mansidão de sabedoria. Mas, se tendes amarga inveja, e sentimento faccioso em vosso co20 ração, não vos glorieis, nem mintais contra a verdade. Essa não é a sabedoria que vem do alto, mas é terrena, animal e diabólica. (Tg 3.13-15)

3. Andarão dois juntos, se não estiverem de acordo? (Am 3.3)

4. A ira do homem não opera a justiça de Deus. (Tg 1.20)

5. Aquele que não ama não conhece a Deus; porque Deus é amor. (1 Jo 4.8)

6. Se alguém diz: Eu amo a Deus, e aborrece a seu irmão, é mentiroso. Pois quem não ama a seu irmão, ao qual viu, como pode amar a Deus, a quem não viu? (1 Jo 4.20)

7. E, correndo Filipe, ouviu que lia o profeta Isaías e disse: Entendes tu o que lês? E ele disse: Como poderei entender, se alguém me não ensinar? (At 8.30,31a)

8. Que pregues a palavra, instes a tempo e fora de tempo, redarguas, repreendas, exortes, com toda a longanimidade e doutrina. Porque virá tempo em que não sofrerão a sã doutrina; mas, tendo comichão nos ouvidos, amontoarão para si doutores conforme as suas próprias concupiscências; E desviarão os ouvidos da verdade voltando às fábulas. (2 Tm 4.2-4)

9. E logo os irmãos enviaram de noite Paulo e Silas a Beréia; e eles, chegando lá, foram à sinagoga dos judeus. Ora estes foram mais nobres do que os que estavam em Tessalônica, porque de bom grado receberam a palavra, examinando cada dia nas Escrituras se estas coisas eram assim. (At 17.10,11)