Capítulo 07 - Deus te dê em dobro tudo que me desejares.



Há coisas que, a priori, parecem lícitas, mas após uma análise mais aprofundada vê-se que não o são. Esta frase - Deus te dê em dobro tudo que me desejares - está nos limites do justo segundo o código de Hamurábi, que tem por princípio a Lex taliones (a lei do Talião: o olho por olho, dente por dente), mas em relação ao evangelho de Cristo está fora. Ela é, sem qualquer dúvida, uma frase anticristã. Portanto, nenhum servo fiel ao Senhor Jesus deve usá-la.

Hamurábi, famoso imperador da Babilônia, o atual Iraque, reinou entre 2067 e 2025 a.C. Um dos seus grandes feitos foi a promulgação de um código de amplas proporções, 282 artigos, que abrange leis civis, políticas, militares e comerciais, por meio das quais se pode apreciar, objetivamente, o progresso da civilização babilônica. Segundo a legislação de Hamurábi, a injúria e os danos deveriam ser vingados com atitudes ou fatos equivalentes: olho por olho, dente por dente.

Ao dar-nos seu evangelho, o Cristo mostrou-nos, de modo claro e enfático, o quanto ele diverge do código de Hamurábi. O Mestre disse: “Vocês ouviram o que foi dito: Olho por olho, dente por dente. Mas eu lhes digo: não se vinguem dos que fazem mal a vocês. Se alguém processar você para tomar a sua túnica, deixe que leve também a capa. Se um dos soldados estrangeiros forçá-lo a carregar uma carga um quilômetro, carregue-a dois quilômetros. Se alguém lhe pedir alguma coisa, dê; e, se alguém lhe pedir emprestado, empreste” (Mt 5.38-41).

Dizer a alguém Deus te dê em dobro tudo que me desejares pode até servir de aviso às pessoas para que não desejem coisas ruins para nós, mas, ao mesmo tempo, revela que somos pessoas más, que não temem nem mesmo quando desejam em dobro coisas ruins para os outros. Isso é próprio da velha natureza a ser vencida pela nova vida em Cristo: Paulo, o apóstolo (Rm 8.1).

Não temos o direito de pagar o mal com o mal, nem no direito canônico nem nos demais direitos modernos. Enganam-se os que acham que não levar desaforos para casa é a maior derrota que se pode impor a um desafeto. Mas podemos, sim, convencer as pessoas com argumentos sábios e deixá-las impressionadas com o nosso perdão, com a nossa mansidão e com a nossa humildade. Essa é a vitória e a alegria de quem já foi insultado, perseguido e caluniado. Dizer a alguém Deus te dê em dobro tudo que me desejares é infringir os princípios bíblicos que devem regular os nossos relacionamentos, e, ainda assim, ter o atrevimento de por Deus do nosso lado a fim de satisfazer nossos velados desejos de vingança. Essa é uma típica violação do terceiro mandamento: “Não use o meu nome sem o respeito que ele merece; pois eu sou o SENHOR, o Deus de vocês, e castigo aqueles que desrespeitam o meu nome” (Êx 20.7).

É claro que Deus levará em conta, primeiramente, a Sua soberania, e a Sua vontade, e a Sua Palavra. Por que Ele agiria segundo meus ilícitos desejos? Ele não pode perdoar quem me ofendeu, se tal pessoa reconheceu seu erro, confessou-o e até pediu perdão? É claro que sim. Está escrito: “O que encobre as suas transgressões, nunca prosperará, mas o que as confessa e deixa, alcançará misericórdia” (Pv 28.13).

E agora digamos juntos: Muito obrigado, SENHOR.

SUBSÍDIOS BÍBLICOS

1. Examinai tudo. Retende o bem; abstende-vos de toda a aparência do mal. (1 Ts 5.21,22)

2. Vós sois o sal da terra... Vós sois a luz do mundo... (Mt 5.13a,14a)

3. Não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira, porque está escrito: Minha é a vingança; eu recompensarei, diz o Senhor. (Rm 12.19)

4. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas. (Mt 11.29)

5. Olhai por vós mesmos. E, se teu irmão pecar contra ti, repreende-o, e, se ele se arrepender, perdoa-lhe. E, se pecar contra ti sete vezes no dia, e sete vezes no dia vier ter contigo, dizendo: Arrependo-me; perdoa-lhe. Disseram então os apóstolos do Senhor: Acrescenta-nos a fé. (Lc 17.3,4)